Participação da América Latina no CERN

Na década de 1980, teve início uma forte expansão da física de altas energias em várias partes do mundo sob a liderança do Fermilab nos EUA e do CERN na Europa. Essa expansão teve um forte refexo na América Latina, que à época contava com pouquíssimos grupos trabalhando na área, sendo basicamente envolvidos em raios cósmicos. A iniciativa pioneira de envolvimento de pesquisadores da AL na física de aceleradores partiu do Fermilab através de uma ação direta de Leo Lederman, ganhador do prêmio Nobel e, à época, diretor daquele laboratório. Lederman visitou pessoalmente vários países do nosso continente convidando pesquisadores, que em sua maioria trabalhavam em física teórica ou em experimentos de física nuclear, a se engajarem em experimentos de altas energias no Fermilab (https://www.fnal.gov).

Essa iniciativa foi coroada de sucesso devido, por um lado, às excelentes condições e ao ambiente de trabalho encontrados pelos pesquisadores latinoamericanos naquele laboratório, bem como à forte mobilização desses pesquisadores junto aos jovens estudantes e pós-docs no retorno aos seus países de origem. Logo em seguida, o CERN iniciou uma campanha semelhante, tendo em vista as diversas colaborações envolvendo o acelerador LEP (The Large Electron Collider, acelerador antecessor ao atual Large Hadron Collider-LHC). Esse acelerador junto com o Tevatron do Fermilab marcaram a expansão da física de aceleradores no mundo e, em particular, na nossa região, durante toda a década de noventa. 

Nesse período, consolidaram-se os vários grupos de física experimental de altas energias na AL que, na década seguinte, acabaram confuindo, em sua grande maioria, no Large Hadron Collider (LHC), no CERN. O envolvimento se deu nos quatro principais detectores trabalhando na aquisição de dados deste acelerador: ALICE- A Large Ion Collider Experiment, ATLAS- A Toroidal LHC Apparatus, CMS- Compact Muon Solenoid e LHCb- LHC-beauty, além de pequenos experimentos como ALPHA-Antihydrogen Laser PHysics Apparatu.

Com a experiência e a maturidade adquiridas nos experimentos anteriores, os diferentes grupos procuraram se envolver e ter uma participação efetiva nos diferentes projetos de hardware no processo de desenvolvimento e construção dos detectores, bem como participaram no grande projeto de processamento e armazenamento dos dados provenientes dos detectores do LHC, conhecido como computação em GRID.

Entretanto, para isso acontecer de forma signifcativa, era necessário ir além da participação de pesquisadores e alguns estudantes de doutorado e pós-docs. Era fundamental o envolvimentos de pessoal técnico de alto nível, bem como uma maior mobilidade de estudantes de todos os níveis, incluindo, evidentemente, pesquisadores. Com isso, teríamos a possibilidade de ter uma participação efetiva e relevante como a dos nossos colegas de países de maior tradição na área. Na época, os órgãos fnanciadores de nossos países, sem tradição em grandes colaborações internacionais, não tinham, em geral, mecanismos de fnanciamento para envio de técnicos e de estudantes por curtos períodos, e, mesmo para pesquisadores, o fnanciamento de viagens era bastante limitado, mesmo se tratando da década de dois mil, onde a situação de fnanciamento da pesquisa era bem razoável para os nossos padrões históricos.

Essa situação sofreu uma grande e positiva reviravolta em 2005, com a implementação do projeto HELEN (https://cerncourier.com/a/helen-networkunites-europe-and-latin-america/), liderado pelo bem conhecido físico italiano, Luciano Maiani, ex-diretor do CERN. Esse projeto, apresentado à Comunidade Econômica Europeia (EU) tendo como principal avalista o próprio CERN, permitiu a circulação de pesquisadores, técnicos e estudantes europeus e latino americanos não somente relacionados às experiências do CERN (embora fosse a grande maioria), mas também ao Projeto Auger, sediado na Argentina.

Anteriormente a esse projeto, a participação de todos os países latino americanos no CERN se limitava, de forma mais ou menos constante, a um pouco mais de quarenta pessoas por ano, na maioria pesquisadores e alguns estudantes. Ao fnal do projeto em 2009, o número de pessoas trabalhando naquele laboratório, provenientes dos nossos países, chegou a cento e vinte e cinco. Essa massa crítica qualifcada permitiu a inserção e a efetivação de vários latino-americanos em diversos projetos de hardware nos principais detectores que operam com o acelerador LHC, alguns desses realizados em nossos países e depois enviados à Suíça. Além disso, foram implementados com sucesso vários centros de computação em GRID operando em diversos países da AL, que hoje funcionam sob a coordenação do CLAF.

O projeto HELEN foi responsável por um salto de qualidade na nossa atuação junto a laboratórios de altas energias, qualifcando o pessoal tanto técnico como científco, além de envolver empresas da AL. Isso mostra de forma bastante consistente a importância da área não só pelo seu impacto na física fundamental, mas pelo seu caráter formador e desenvolvedor de novas tecnologias em várias áreas, tais como eletrônica ultra rápida, novos materiais, novas técnicas de detecção, computação de alto desempenho, entre outras tantas coisas.

Logo após o fm do projeto HELEN, foi implementado um novo projeto na mesma direção, chamado de projeto EPLANET (https://epnews.web.cern.ch/content/eplanet-european-particle-physics-latin-americanetwork), também liderado pelo professor Maiani e fnanciado pelo EU com a chancela do CERN. O projeto E-PLANET teve início em 2011 e durou até 2015. Nesse período, que coincidiu com Run I do LHC, seguiu a expansão da comunidade de altas energias da AL naquele laboratório, que resultou em praticamente multiplicar por dois o número de usuários de nossos países no CERN. Enquanto o projeto HELEN foi direcionado prioritariamente para a instalação dos detectores do LHC, o projeto E-Planet direcionou seus esforços principalmente para a operação, o tratamento e a análise dos dados.

Apesar do sucesso de ambos projetos, com resultados bem concretos, as novas tentativas feitas junto à EU para projetos semelhantes de colaboração entre a Europa e América Latina foram frustradas. Essas tentativas foram novamente lideradas pelo professor Maiani, também com forte apoio do CERN, e acabaram por conseguir uma boa pontuação pela qualidade do projeto, mas insufciente para serem aprovadas.

A descontinuidade desse apoio foi sentida imediatamente pela comunidade latino-americana de altas energias. Além da interrupção nessa importantíssima linha de fnanciamento, vários países da AL entraram em crise fnanceira, impactando diretamente os seus orçamentos para a ciência e tecnologia. O resultado dessa enorme crise que se abateu sobre a área de altas energias na AL pode ser sentido diretamente na cafeteria do CERN, onde são raras as animadas rodas de jovens falando espanhol, português ou, muitas vezes, portunhol.

Além dessa palpável constatação no dia a dia do CERN, os números obtidos no site http://usersofce.web.cern.ch/annual-statistics, com a participação ano a ano do número de usuários de cada país mostra de forma concreta a redução no número de pessoal latino-americano trabalhando naquele laboratório. Na fgura abaixo, foi plotado o número de usuários da América Latina por ano, desde o ano 2001 até no ano passado. O comportamento mostra de forma resumida aquilo que foi colocado neste artigo: a situação estacionária no início dos anos dois mil, a forte derivada positiva com início em 2005 que segue até 2017, onde aparece uma forte infexão e a derivada se torna fortemente negativa.

O LHCb e o ALICE estão, no momento, instalando novos detectores que devem operar no RunIII no próximo ano. Por outro lado, o ATLAS e CMS estão iniciando os seus projetos de upgrade, com mudanças substanciais nos seus detectores, que deverão ser implementados em 2025. Infelizmente, a infexão na participação do pessoal da AL no CERN ocorre em um momento extremamente rico vivido por esse laboratório, onde seria possível consolidar e aprofundar o conhecimento adquirido nas décadas anteriores, dar continuidade na formação de novos técnicos e pesquisadores, bem como
expandir ainda mais a área em nossos países em torno desse projeto de grande relevância e de longo prazo que é o acelerador LHC.

Por isso, se faz necessário estancar essa tendência por demais preocupante. A perda de pessoal trabalhando no CERN pode ter consequências extremamente nefastas para a área de altas energias na AL, com uma perda provavelmente irreversível de um patamar conquistado a duras penas nos últimos anos. 

Nesse sentido, o CLAF está em negociações diretamente com o CERN com o propósito de fazer um acordo formal de cooperação científca entre essas duas entidades não governamentais. O propósito principal é de reunir esforços para buscar novas fontes internacionais de fnanciamento, para que a comunidade da AL possa dar sequência aos seus trabalhos técnicoscientífcos nesse grande laboratório, sem uma solução de continuidade que começa a se fazer presente.


Ignacio Bediaga
Pesquisador titular do CBPF
e membro da colaboração LHCb

 

 

 

çamento do HELEN no CERN: Luciano Maiani, Veronica Riquer e o então Diretor Geral do CERN Robert Aymar

Lançamento do HELEN no CERN: Luciano Maiani, Veronica Riquer e o
então Diretor Geral do CERN Robert Aymar

 

Estudantes Latino-Americanos em 2007 no CERN, financiados pelo projeto HELEN

Estudantes Latino-Americanos em 2007 no CERN, financiados pelo projeto HELEN

 

Encontro no projeto EPLANET no CERN em 2012

Encontro no projeto EPLANET no CERN em 2012

 

Agradeço ao Salvatore Mele (CERN), por informações contidas neste texto